
Um palacete aberto ao Tejo
PORTFOLIO
MORADIA MARVILA
Remodelação | Habitação
Área: 155,00 m2
Em Marvila, encontrámos um edifício que carregava consigo a memória de uma Lisboa nobre: as cantarias em pedra, a métrica dos vãos, as estruturas de madeira que suportam coberturas centenárias. Era um palacete do início do século XIX que havia perdido a sua coerência interior: espaços adjacentes sem comunicação entre si, diferentes níveis e dimensões que coexistiam sem diálogo, uma sucessão de compartimentos que resistia à vida contemporânea.
A nascente, a fachada principal com as suas áreas a reabilitar. A poente, uma ampliação com espaços interiores e exteriores sem uso definido, fechados sobre si mesmos, à espera de serem descobertos. Entre os dois conjuntos, uma oportunidade rara.

O desafio
O objetivo foi, desde o início, criar uma narrativa espacial onde antes existia fragmentação, respeitando a hierarquia e o carácter do edifício, sem apagar a sua identidade de palacete.
A organização proposta foi clara na sua lógica: a nascente, a zona privada - três quartos, closet e duas instalações sanitárias- distribuída por um hall interior com luz natural que dialoga com o pátio interior; a poente, a zona social - sala de estar, cozinha e hall de distribuição principal - com relação direta e visual com o pátio exterior.




A transformação
A sala de estar, com os seus trinta metros quadrados, afirmou-se como a área nobre da habitação. Voltada para um extenso terraço e emoldurada por um sistema de vistas que se abre sobre o Tejo, tornou-se o coração da casa - um espaço onde a escala apalaçada do edifício se manifesta de forma plena.
A antiga carpintaria da quinta foi reinventada como cozinha e espaço de refeição. Mais do que uma transformação funcional, foi um gesto de continuidade: este espaço acede diretamente a um pátio interior (contido entre fachadas), que estabelece uma relação visual entre o hall privado e o hall principal - Uma ligação subtil que permite sentir, em qualquer compartimento da casa, a presença dos vários elementos da família. A cozinha é ainda dotada de casa de banho social, despensa e atelier de apoio, oferecendo uma versatilidade silenciosa que serve a vida sem se impor.

Materialidade e atmosfera
O projeto partiu de um gesto de reconhecimento: identificar os elementos que definem a identidade deste tipo de construção e honrá-los. As cantarias em pedra que enquadram aros de portas e janelas, a métrica original dos vãos, as estruturas de madeira que sustentam as coberturas - cada um destes elementos foi preservado como protagonista silencioso da narrativa.
Os novos materiais surgem em diálogo com estas pré-existências, sem competir com elas. A luminosidade e ventilação naturais percorrem todos os espaços, complementadas por uma relação visual com a paisagem e pela métrica característica de um edifício apalaçado; condições que moldam uma vivência ao mesmo tempo cuidada e clássica.
Mais do que uma reabilitação, este projeto foi um exercício de escuta: encontrar o fio condutor que estava oculto entre espaços desligados, e tecer, com ele, uma casa que honra o passado e se abre, com serenidade, à vida de hoje.



